CONSULTOR MÉDICO DO HOSPITAL POLICLIN                                                                               083

 

Enfisema Pulmonar

 

Introdução

 

O Enfisema Pulmonar é uma doença progressiva das vias respiratórias na qual milhões de minúsculos alvéolos pulmonares (pequenos saquinhos de ar que juntos formam o corpo do pulmão) tornam-se disformes e se rompem. Como estes alvéolos, frágeis, danificados e finos, tornam-se destruídos, os pulmões perdem sua elasticidade natural e não conseguem esvaziar-se. Com a progressão da doença, os pulmões também perdem sua capacidade de absorver oxigênio e liberar gás carbônico. Respirar torna-se fisicamente mais difícil e a pessoa sente falta de ar facilmente, como se ela não estivesse absorvendo ar suficiente.

 

O Enfisema e a bronquite crônica são as duas formas mais comuns da doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC – Doutor Policlin nr. 7), e elas acontecem freqüentemente em conjunto. Uma pessoa com bronquite crônica (uma inflamação e inchaço das paredes dos brônquios) tipicamente tem uma tosse diária com muco, em que a crise dura vários meses de cada vez, durante anos. O Enfisema e a bronquite crônica são causados pela lesão aos pulmões e aos brônquios e esta lesão normalmente é permanente. Quando a lesão é causada pelo fumo, os sintomas podem melhorar depois que o paciente para de fumar.

 

O fumo é responsável por até 90 por cento dos casos de enfisema. A exposição secundária à fumaça do cigarro e a poluição do ar também podem contribuir para o enfisema, embora estes fatores sejam muito menos importantes que o cigarro. Os fumantes expostos a níveis altos de poluição do ar, incluindo o dióxido de enxofre e os particulados (partículas maiores suspensas no ar), parecem aumentar o risco de desenvolvimento da DPOC.

 

Aproximadamente 1 por cento das pessoas no mundo inteiro desenvolvem enfisema como conseqüência de uma doença genética (herdada) conhecida como deficiência de alfa 1-antitripsina. Nesta condição genética, níveis muito baixos de uma proteína chamada alfa 1-antitripsina (AAT) são produzidos. Esta proteína protege os pulmões dos danos pelas enzimas. Quando os níveis de AAT são baixos, os pulmões são propensos a serem lesados por estas enzimas. Em sua forma mais severa, o enfisema pode se desenvolver em pessoas na faixa de 30 e 40 anos de idade. Como o cigarro interfere com a função da AAT, as pessoas com deficiência desta proteína e fumam desenvolvem o enfisema mais severo, em uma idade mais precoce que aqueles que não fumam. A maioria das pessoas com deficiência de AAT é da raça branca e descendente dos europeus do norte.

 

Aproximadamente 10 milhões de pessoas em todo o mundo têm enfisema, e outros 12 milhões têm DPOC. A DPOC é a causa mais comum de morte por doença das vias respiratórias. A maioria das pessoas com enfisema se enquadra dentro do perfil do fumante, do sexo masculino, acima dos 40 anos, que vive em áreas onde a poluição é um problema constante. Porém, por causa do aumento dramático de mulheres fumantes durante as últimas décadas, a taxa de enfisema nelas continua crescendo.

 

Quadro Clínico

 

Durante as fases precoces do enfisema, a maioria das pessoas terá poucos sintomas. A doença normalmente progride lentamente, e quase não podem ser notadas mudanças na respiração. Em média a pessoa não experimentará sintomas até que ela fume um pacote de cigarros por dia por mais de 20 anos.

 

Porém, com o passar do tempo, quase todas as pessoas com enfisema desenvolverão falta de ar. No princípio, isto só pode ser notado com atividades físicas mais fortes, como subir vários degraus de uma escada ou praticar esporte. Com o passar do tempo, a falta de ar pode acontecer com as atividades diárias, como durante o serviço doméstico ou ao caminhar distâncias curtas. Eventualmente, a falta de ar pode acontecer durante o dia todo, até mesmo quando a pessoa está em repouso ou enquanto dorme. Quando a doença alcança seu pior estágio, o enfisema pode levar à “fome de ar”, a sensação constante de não poder respirar.

 

Os sintomas respiratórios são os mesmos, independente da causa do enfisema. Porém, duas pessoas com o mesmo grau de dano pulmonar podem experimentar sintomas diferentes. Uma pessoa com enfisema moderado pode sentir muita falta de ar, enquanto outra pessoa em fases mais avançadas da doença pode quase não ser incomodada pelos sintomas. Estas diferenças podem ser o resultado de outras condições clínicas ou de como a pessoa trata e condiciona seus pulmões.

 

Outros sintomas causados por enfisema incluem:

 

  • Respiração ofegante, tosse ou expectoração com muco (se bronquite crônica também está presente)
  • Sensação de pressão no tórax
  • Fadiga constante
  • Dificuldade para dormir
  • Dores de cabeça matutinas
  • Perda de peso
  • Inchaço nos tornozelos
  • Letargia ou dificuldade de se concentrar

 

Diagnóstico

 

Seu médico irá obter de você informação detalhada sobre seu hábito de fumar (há quanto tempo você fuma e quantos cigarros por dia). Outras perguntas podem incluir:

 

  • Você é um fumante passivo (convive com fumantes) no trabalho ou em casa?
  • Você vive ou trabalha em uma área onde você é exposto a substâncias irritantes no ar ou a materiais nocivos?
  • Você vive em área com significativa poluição do ar?
  • Há em sua família alguém com antecedentes de deficiência de AAT, enfisema de começo precoce ou fumantes que desenvolveram enfisema?

 

Seu médico também perguntará sobre seus sintomas respiratórios, particularmente se e quando você desenvolveu falta de ar. Ele também poderá perguntar por alergias respiratórias, resfriados mais sérios e freqüentes ou uma tosse persistente e de forte intensidade.

 

Ele fará um exame procurando pelos sinais típicos de enfisema. Isto pode incluir:

  • Avaliar a falta de ar enquanto você executa atividades simples, como entrar na sala de exame.
  • Observar o tamanho e a forma e a elasticidade de seu tórax.
  • Escutar seus pulmões procurando ruídos ou a perda dos sons normais da respiração
  • Examinar suas orelhas, nariz e garganta para encontrar razões por que você pode estar tossindo
  • Escutar seu coração
  • Conferir sua pele, lábios e unhas para ver se há um tom azulado que indique baixos níveis de oxigênio no sangue (seu médico também pode medir diretamente seus níveis de oxigênio do sangue com um sensor especial colocado em seu dedo conhecido como oxímetro)
  • Conferir suas unhas para observar se há uma curvatura incomum ("baqueteamento dos dedos" – “dedos em vidro de relógio”) que pode ser uma pista da doença pulmonar crônica
  • Sentir seus tornozelos para ver se há inchaço, que indique acúmulo de fluidos.

 

É importante lembrar-se que os resultados deste exame podem ser totalmente normais em pessoas nas fases mais precoces do enfisema.

 

Na maioria das pessoas, o enfisema será diagnosticado pela Radiografia do tórax ou pelo teste de função pulmonar (também conhecido como espirometria). Uma Radiografia simples dos pulmões pode mostrar mudanças típicas do enfisema incluindo a amplificação dos pulmões, cicatrizes ou a formação de buracos (bolhas ou cavidades). Porém, estas mudanças podem não aparecer até que o dano significativo aconteça. A Tomografia computadorizada (a TC) é melhor para descobrir as mudanças mais precoces do enfisema, e pode ser útil no diagnóstico da doença em pessoas mais jovens ou naqueles que nunca fumaram.

 

A espirometria é útil para diagnosticar o enfisema e determinar a fase da doença. Neste teste a pessoa irá assoprar vigorosamente por um tubo que é conectado a uma máquina projetada para medir a capacidade pulmonar.

 

Outros testes que seu médico pode solicitar incluem:

 

  • Gasometria do Sangue Arterial — Mede os níveis de oxigênio e de gás carbônico no sangue, colhido por uma agulha em uma pequena artéria no pulso ou na virilha.
  • Eletrocardiograma (o ECG) — Evidencia problemas do coração que possam causar dificuldades para respirar ou sobrecarga no coração causados pelo enfisema.
  • Exame de Escarro — Usado se o paciente freqüentemente tosse com expectoração.

 

Se seu médico suspeitar, ele pode solicitar um exame de sangue específico para confirmar o diagnóstico de deficiência de alfa-1 antitripsina. Se este exame for positivo, ele pode recomendar uma investigação na família inteira.

 

Prevenção

 

Se você fuma, pare imediatamente. Se você não fuma, não comece. Estudos mostraram que o fato de você deixar de fumar pode prevenir o enfisema ou pode reduzir a velocidade de progressão da doença. Você também pode limitar sua exposição à poluição do ar restringindo sua atividade ao ar livre quando houver relatos de níveis altos de fumaça em sua cidade. As pessoas expostas às substâncias químicas prejudiciais no trabalho devem falar com seus patrões quanto à necessidade do uso de máscaras protetoras ou devem consultar um especialista em medicina ocupacional.

 

As pessoas diagnosticadas com enfisema devem pedir para seus médicos, indicações para vacinação apropriada contra a gripe (influenza) e contra a pneumonia pneumocócica. Estas vacinações podem ajudar a prevenir infecções respiratórias ameaçadoras à vida, em pessoas com doença pulmonar.

 

Tratamento

 

Nenhum tratamento pode inverter ou interromper o enfisema pulmonar, mas alguns passos podem ser tomados para aliviar os sintomas, as complicações podem ser tratadas e podem ser minimizadas as dificuldades associadas à respiração. Encabeçando a lista de conselhos médicos no tratamento do enfisema está a recomendação de deixar de fumar - o fator mais importante para manter os pulmões saudáveis. Parar de fumar é muito efetivo nas fases precoces do enfisema, mas também pode reduzir a velocidade de perda da função pulmonar em fases mais tardias da doença.

 

Métodos para deixar de fumar incluem:

 

1.     Reposição de nicotina:

 

·            Adesivos cutâneos (Nicotinel ®)

·            Goma de mascar

·            Spray nasal

 

2.     Anti-Tabágicos:

 

·     Cloridrato de Bupropiona (Zyban ® e Wellbutrin ®)

 

3.     Terapias de Apoio:

 

·         Psicoterapia.

·         Terapia de grupo

·         Meditação

·         Hipnose

·         Auto-hipnose

·         Massoterapia

·         Ansiolíticos

·         Acupuntura - Pontos específicos no pavilhão auricular e na pele

·         Aulas sobre o tema tabagismo e seu universo, slides, vídeos, etc.

 

4. Desintoxicação e controle de peso:

 

·                     Reeducação alimentar

·                     Reeducação para atividade física

 

5. Acompanhamento médico regular: (1 x semana, a cada 3 meses, 6 meses, 1 ano e 3 anos.

 

As pessoas com deficiência de alfa-1 antitripsina podem ser candidatas ao tratamento de reposição de AAT natural, obtida de doadores. Embora esta forma de tratamento pareça ser efetiva, ela é demorada e muito cara. Formas geneticamente elaboradas e uma forma inalada de AAT estão sob pesquisa.

 

Seu médico pode prescrever vários medicamentos diferentes com a intenção de aliviar os sintomas do enfisema. Eles podem incluir:

 

  • Broncodilatadores — Incluindo o Salbutamol (Aeroflux ®, Aerotide ® e outras marcas), o Salmeterol (Serevent ®) ou o Ipratrópio (Iprabon ®). Estes medicamentos são tomados por inalação (em modo spray), segurados na mão ou por nebulizadores que criam uma “névoa” que pode ser inalada. A Teofilina (Teolong ®, Talofilina ®, dentre outras marcas) é um broncodilatador em forma de comprimido. Como ele pode interagir com medicamentos e causar efeitos colaterais, ele é menos freqüentemente usado que os medicamentos inalados. Os broncodilatadores ajudam a abrir os alvéolos pulmonares e reduzir a falta de ar e a tosse.
  • Corticosteróides — Estes medicamentos ajudam a reduzir a inflamação nos pulmões. Durante uma crise aguda, eles são freqüentemente tomados em forma de comprimidos ou através de injeções (Solu-cortef ®, Flebocortid ®). Podem ser dados corticosteróides inalados (Clenil ®) ou por via oral de forma contínua para ajudar a controle a inflamação das bronquites crônicas.
  • Antibióticos — Estes são tipicamente usados para crises agudas de enfisema, ativadas por infecções respiratórias.

 

Foi provado que a oxigênioterapia aumenta a expectativa de vida das pessoas com enfisema que têm níveis baixos de oxigênio no sangue. O oxigênio normalmente é administrado por um tubo plástico (cânula nasal) colocado sob as narinas. O oxigênio ou é armazenado em cilindros de metal, ou é purificado do ar por uma máquina elétrica (um concentrador de oxigênio). Vários dispositivos de peso leve, portáteis estão agora disponíveis, que permitem àqueles que precisam de oxigênio durante várias horas de cada vez, tratar em suas próprias casas. Algumas pessoas com enfisema têm necessidade de oxigênio só à noite. Como o suprimento de oxigênio em casa é muito caro, as companhias de seguro médico têm rígidas exigências para disponibilizar oxigênio em casa.

 

As pessoas com enfisema também têm maior risco de se tornarem desnutridas e de desenvolver problemas psicológicos como a ansiedade ou a depressão. Em decorrência disso, é importante visitar o médico regularmente e estabelecer um plano de tratamento adequado.

 

Vários outros tratamentos estão disponíveis para pessoas nas fases avançadas do enfisema.

 

  • Reabilitação pulmonar — Trata-se de uma forma de fisioterapia que ensina os pacientes com enfisema a conservar energia, melhorar a força e reduzir a falta de ar.
  • Cirurgia para redução do volume do pulmão — É uma técnica cirúrgica, ainda controversa, na qual porções do pulmão doente são retiradas para melhorar a função do pulmão restante, saudável. Recentemente, uma pesquisa clínica mostrou que esta cirurgia é significativamente benéfica para pessoas com uma determinada distribuição de enfisema no pulmão em que os sintomas limitam significativamente a atividade do paciente.
  • Transplante pulmonar — Geralmente só considerado em pessoas cujo enfisema é tão severo que a expectativa de vida do paciente é de menos de dois ou três anos.

 

Qual médico procurar?

 

Procure um pneumologista se você desenvolver:

 

  • Falta de ar de aparecimento recente
  • Uma tosse persistente, com ou sem muco (catarro)
  • Uma diminuição em sua capacidade habitual para se exercitar